Demolição da antiga Delegacia de Estrela apaga parte da história e levanta questionamentos sobre decisão da Prefeitura

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Demolição da antiga Delegacia de Estrela apaga parte da história e levanta questionamentos sobre decisão da Prefeitura

Casarão que abrigou a Polícia Civil por quase 50 anos foi derrubado na última semana. Justificativa ligada à área de arrasto é contestada diante das características do local e da possibilidade de preservar a memória histórica.

ESTRELA – A demolição do antigo prédio da Delegacia de Polícia de Estrela, realizada na última semana, representa mais do que o desaparecimento de uma construção antiga. A retirada do casarão, que por quase 50 anos abrigou a Polícia Civil, reacende o debate sobre a preservação do patrimônio histórico e os critérios adotados pela administração municipal para transformar áreas atingidas pelas enchentes.

Localizado na Avenida Rio Branco, no Bairro Oriental, o imóvel fazia parte da memória da cidade. Sua história esteve diretamente ligada à segurança pública e ao atendimento da comunidade durante décadas. A delegacia deixou o local em setembro de 2020, após sucessivos alagamentos provocarem danos à ao piso que era de madeira e aos móveis e a documentos policiais.

A saída da Polícia Civil, porém, não precisava significar, necessariamente, o fim do prédio. Mesmo situado em uma região sujeita às cheias do Rio Taquari, seria possível discutir alternativas para preservar a construção, adaptar seu uso ou manter ao menos parte de suas características históricas.

A demolição encerra essa possibilidade e deixa uma pergunta: a destruição era realmente a única alternativa?

Área de arrasto é motivo de questionamento

A justificativa relacionada à área de arrasto do Rio Taquari também levanta dúvidas. Embora o imóvel tenha sido historicamente atingido pelas enchentes, há questionamentos sobre o enquadramento específico do terreno como zona de arrasto, especialmente porque, conforme relatos sobre as características do local, não haveria ali uma corredeira com força suficiente para produzir o efeito típico desse fenômeno.

É importante diferenciar uma área sujeita a alagamentos de uma zona de arrasto. A primeira pode ser inundada quando o nível do rio sobe. A segunda envolve o deslocamento violento da água e de sedimentos, com potencial para destruir estruturas.

A definição, contudo, depende de estudos e mapas técnicos oficiais. Por isso, cabe à Prefeitura esclarecer qual classificação foi atribuída ao terreno, quais laudos fundamentaram a decisão e se foram avaliadas alternativas à demolição.

O fato de o prédio ter sido atingido por diversas enchentes, inclusive antes de a delegacia ser instalada no local, demonstra que os alagamentos não eram uma novidade. Essa condição, por si só, não responde se a demolição era necessária ou se a preservação seria tecnicamente viável.

Um quarteirão inteiro desaparece

A demolição não atingiu apenas o antigo prédio da delegacia. O quarteirão também abrigava uma construção já muito depredada que, no passado, foi ocupada por uma empresa privada do setor de eletrificações. Esse imóvel, que estava em leilão judicial, também foi derrubado.

Com a retirada das edificações, parte da paisagem urbana e da memória de Estrela desaparece. São construções que testemunharam diferentes fases do desenvolvimento da cidade e que poderiam ter sido objeto de um debate público antes de uma decisão irreversível.

A questão não é ignorar os riscos das enchentes nem defender a manutenção de imóveis sem condições de segurança. É questionar se a solução adotada considerou o valor histórico dos prédios, as características específicas de cada terreno e as possibilidades de preservação.

Prefeitura precisa esclarecer a decisão

A administração municipal tem o dever de planejar o futuro da cidade, reduzir riscos e proteger a população. Mas também precisa considerar a história e a identidade urbana nas decisões que modificam de forma definitiva o patrimônio coletivo.

No caso da antiga Delegacia de Polícia, faltam respostas públicas claras sobre os critérios técnicos utilizados, a eventual existência de estudos de preservação e as razões pelas quais não teria sido possível buscar outra destinação para o casarão.

A demolição já consumada impede a recuperação daquela construção original. Resta, agora, esclarecer quem tomou a decisão, com base em quais documentos e qual será a destinação da área. A redação do Jornal Nossa Gente não teve esta resposta da Administração municipal de Estrela.

Quando um prédio histórico é colocado abaixo, não se perde apenas tijolo, madeira e telhado. Perde-se também uma parte da história que não pode ser reconstruída da mesma forma. A população de Estrela merece conhecer os motivos que levaram à demolição e saber se a preservação desse patrimônio foi efetivamente considerada antes de a decisão se tornar irreversível.

Foto: Arquivo

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