Depois da grande enchente de 2024, município aperfeiçoou protocolos de emergência, retirada preventiva de famílias e atendimento aos atingidos; agora, com o rio recuando, equipes entram em campo para limpar a cidade
LAJEADO – A cada nova elevação do Rio Taquari, Lajeado enfrenta um desafio que passou a fazer parte da rotina do município desde a grande enchente de maio de 2024: como proteger as pessoas, reduzir os impactos e preparar a cidade para voltar à normalidade o mais rapidamente possível.
A enchente desta semana, que levou o Taquari a 24,46 metros às 12h15 de terça-feira (22), mostrou uma cidade que passou a lidar com as cheias de maneira diferente. O conhecimento acumulado desde 2024, aliado ao monitoramento do rio, à retirada preventiva de moradores e à organização das equipes municipais, mudou a resposta do poder público diante da elevação das águas.
Quando o rio começou a subir, a Prefeitura acionou o Plano de Contingência e iniciou a retirada de famílias das áreas de risco. No Parque do Imigrante, foi montada a estrutura para receber os moradores retirados de suas casas. Ao mesmo tempo, diferentes secretarias passaram a atuar de forma integrada: Assistência Social, Saúde, Obras, Serviços Urbanos, Meio Ambiente, Segurança Pública, Trânsito e Educação. (FOTO DO ABRIGO)
Agora, com o Taquari recuando, começa outra etapa. E ela também revela uma mudança na forma de enfrentar as enchentes.
A própria água ajuda a limpar a cidade
Enquanto o rio baixa, as equipes da Secretaria de Obras e da Secretaria de Serviços Urbanos avançam pelas áreas atingidas. A estratégia é aproveitar a água ainda presente nas ruas para remover a camada mais pesada de lama antes que ela seque e fique aderida ao pavimento.
Retroescavadeiras são utilizadas para retirar o material acumulado, enquanto as equipes avançam gradualmente para os locais liberados pelo recuo das águas.
É uma operação que exige rapidez. Quanto mais tempo a lama permanece sobre o pavimento, mais difícil fica sua remoção. Por isso, o trabalho começa praticamente junto com a descida do rio.
A cena resume uma nova realidade de Lajeado: a cidade não espera mais a enchente terminar completamente para começar a reagir. A resposta começa enquanto a água ainda está baixando.

De 2024 para cá, uma nova maneira de enfrentar as cheias
A grande enchente de 2024 deixou marcas profundas em Lajeado e obrigou o município a rever procedimentos, áreas de risco e formas de atendimento à população.
As experiências acumuladas nas cheias seguintes ajudaram a estruturar uma resposta mais preventiva. A retirada de moradores passou a ocorrer com base nas projeções de elevação do rio, evitando que famílias sejam surpreendidas dentro de suas casas quando a água já tomou as ruas.
Nesta semana, 255 pessoas, de 93 famílias, foram acolhidas no Parque do Imigrante. O número representa uma redução expressiva em relação à cheia de julho, quando cerca de 600 pessoas precisaram deixar suas casas. A queda superior a 50% no número de atingidos também é apontada como reflexo dos programas habitacionais que vêm retirando famílias de áreas de risco e oferecendo alternativas de moradia em locais mais seguros.
A diferença está justamente no intervalo entre a previsão e a ação. Antes de a água chegar, as equipes trabalham para tirar as pessoas do caminho dela. Depois que a água baixa, entram as máquinas para devolver as ruas à população. (FOTO )
É uma adaptação forçada pela realidade do Vale do Taquari, mas que demonstra como o município passou a organizar sua resposta diante de um fenômeno que, desde 2024, deixou de ser tratado como uma ocorrência excepcional.
Abrigo se transforma em estrutura de atendimento
No Parque do Imigrante, a Secretaria de Desenvolvimento Social assumiu uma das principais frentes da operação.
As famílias recebem alimentação, roupas e orientação sobre benefícios e programas sociais. Assistentes sociais e psicólogos acompanham os moradores e identificam necessidades específicas.
A Saúde mantém um técnico de enfermagem 24 horas por dia no abrigo. Pela manhã, uma enfermeira avalia os moradores e, quando necessário, são providenciados encaminhamentos para unidades de saúde ou para a UPA.
Também são emitidas novas receitas para pessoas que perderam medicamentos durante a retirada.
Animais também entram no planejamento
Outra mudança observada após as grandes enchentes é a preocupação com os animais.
Nesta semana, a Secretaria do Meio Ambiente, Saneamento, Sustentabilidade e Bem-Estar Animal resgatou 46 cães e sete gatos, encaminhados ao Canil Municipal, no Bairro Conventos.
Os animais recebem alimentação e atendimento veterinário enquanto aguardam o retorno de seus tutores.

Trânsito acompanha cada metro de recuo
Enquanto a água avança ou recua, o trânsito também precisa ser reorganizado.
O Departamento de Trânsito mantém equipes mobilizadas e sinaliza as áreas interditadas. A liberação das ruas ocorre somente após avaliação das condições de segurança e trafegabilidade.
A lógica é simples: a água baixar não significa que a rua esteja imediatamente segura para o trânsito.
Educação, segurança e demais serviços
A rede municipal de ensino também precisou se adaptar. As EMEIs Risque & Rabisque e Mundo Mágico tiveram as atividades suspensas temporariamente diante do risco de inundação.
A medida demonstra que a preparação para as cheias passou a envolver não apenas a retirada de moradores, mas também a proteção dos serviços públicos.
A experiência que ficou de 2024
A enchente desta semana não tem a dimensão da tragédia de maio de 2024. Mas justamente por isso ela permite observar uma transformação importante: Lajeado passou a conviver com as cheias de outra maneira.
O município ainda sofre os impactos do avanço do Taquari. Famílias precisam deixar suas casas, ruas ficam interditadas, serviços são interrompidos e a lama toma conta de áreas atingidas.
Mas existe hoje uma estrutura de resposta construída a partir das experiências anteriores.
O desafio deixou de ser apenas retirar a população quando a água chega. É monitorar, antecipar, acolher, proteger, limpar e reorganizar a cidade.
E, quando o rio finalmente começa a baixar, as máquinas entram em cena. Em alguns pontos, a mesma água que horas antes invadiu as ruas passa a ser utilizada para ajudar a retirar a lama.
É o retrato de uma cidade que, depois de 2024, precisou aprender a conviver com as cheias — e a transformar experiência em preparação.


