CAXIAS DO SUL – A busca por respostas para situações interpretadas como de ordem espiritual não é uma prática recente. Há décadas, Casas Espíritas de orientação kardecista realizam trabalhos de acolhimento, oração, passes e orientação espiritual para pessoas que relatam experiências que atribuem a questões extrafísicas. Na tradição espírita, porém, a abordagem costuma ser diferente da adotada pelo ritual de exorcismo católico.
Na Igreja Católica, a Diocese de Caxias do Sul nomeou, pela primeira vez, um sacerdote para atuar oficialmente no Ministério do Exorcismo. O padre Daniel D’Agnoluzzo Zatti, de 38 anos, assumiu a função em julho e já possui uma fila de espera de aproximadamente um mês para os atendimentos.
Longe das cenas retratadas em filmes, com gritos, objetos voando e manifestações de terror, o trabalho, segundo o sacerdote, começa com avaliação e discernimento. Antes de qualquer ritual, os relatos apresentados pelos fiéis são analisados para verificar possíveis causas psicológicas, neurológicas ou psiquiátricas.
Para isso, Zatti formou uma equipe com profissionais das áreas de psiquiatria, psicologia e neurologia. A proposta é identificar se os sintomas ou experiências relatadas podem estar relacionados a questões de saúde física ou emocional.
Segundo o padre, apenas entre 5% e 10% das pessoas que procuram o Ministério chegam à etapa de acompanhamento relacionada ao exorcismo. A maioria é encaminhada para outras formas de atendimento após a avaliação inicial, sem que seja identificada qualquer ação considerada sobrenatural.
Quando o exorcismo é considerado necessário, o procedimento segue o protocolo oficial da Igreja Católica, atualizado pelo Vaticano em 1998. Entre os aspectos observados estão relatos de falar idiomas desconhecidos, apresentar conhecimentos aparentemente inexplicáveis, demonstrar força física incompatível com suas condições e apresentar aversão a símbolos religiosos.
O ritual, conforme o sacerdote, é realizado de maneira serena e dura cerca de 30 minutos. São utilizadas principalmente orações, além de elementos religiosos, como água benta e crucifixo.
Caso histórico na Serra
A Serra Gaúcha possui também um registro histórico de exorcismo. Em 1947, no Santuário de Caravaggio, em Farroupilha, uma mulher teria sido submetida ao ritual conduzido pelo padre Teodoro Portolan. Segundo relatos da época, o procedimento teria durado aproximadamente oito horas.
Atualmente, o padre Daniel afirma que sua principal missão não é simplesmente realizar exorcismos, mas acolher, ouvir e ajudar a discernir as situações que levam as pessoas a procurar a Igreja.
Embora as tradições católica e espírita tenham conceitos e procedimentos próprios, ambas possuem, há décadas, espaços destinados ao acolhimento de pessoas que buscam respostas para experiências que interpretam como espirituais. A diferença está, principalmente, na forma como cada doutrina compreende e trata esses fenômenos.

Foto: Reprodução / RBS TV



